Cantinho Da Poesia

TABUADA DO DOIS

-Dois vezes um dois.
Carrega-me com os bois.

Dois vezes dois quatro.
Engraxa-me os sapatos.

Dois vezes três seis.
Ganhas uns vinténs.

Dois vezes quatro oito.
Talvez sete ou oito.

Dois vezes cinco dez.
Escova os canapés.

Dois vezes seis doze.
Afinal dou-te onze.

Dois vezes sete catorze.
Nem onze nem doze.

Dois vezes oito dezasseis.
Só te dou é seis.

Dois vezes nove dezoito.
Faço-te num oito.

Dois vezes dez vinte.
Chega de preguiça.

Não sou tua criada.
Só te dou do meu
Esta rima errada.

João Pedro Messeder,
Versos com Reversos, Caminho



 

 

MAIO - NOVENAS

(...)
Pelas tardinhas amenas
de Maio, belas,
os sinos cantavam - dlim, dlom,
e iam donas e donzelas
para as novenas.

Pelas tardinhas formosas
de Maio, suaves,
os sinos sorriam, - dlim, dlom,
e sobre camas de rosas
casavam aves.

Doces tardinhas amenas
de Maio, belas,
cheias de sinos - dlim, dlom...
Iam donas e donzelas,
iam as brancas e as morenas
para as novenas.

(...)

Afonso Lopes Vieira
in « Doze Canções do Ano»

 

 

CANTO DA ROLA

O sussurro dos pinhais
murmura, longo murmura
os compridíssimos ais...

São gemidos do vento,
que se perdeu no caminho;
seu lento, lento lamento.

O vento passa gemendo,
e as folhas secas são prantos
nas faces do ar correndo.

Nos ramos se enleia agora
o vento, que anda perdido
e, já de cansado, chora.

Anoitece de mansinho:
E o vento pergunta aos ares
por onde fica o caminho?

A noite negra fechou-se:
E o vento debaixo dela,
adormecendo, deitou-se.

O sussurro dos pinhais
murmura, longo murmura
os compridíssimos ais...

Afonso Lopes Vieira
in «Doze Canções do Ano»

 

 

CHUVA DE SETEMBRO

CHUVA DE SETEMBRO

Chuvinha miúda... chove, chove,
Molhando a eira, inchando a uva...
Mãos d'anjo fazem rendas d'água,
Prendem-se aqui grades de chuva...

Chuvinha miúda... chove, chove,
Nos pinheirais, dentro de mim...
Lembra-me agora aquela tarde
Em que chovia assim...

Quando choramos nessa hora,
Que já de nós tão longe vai!
Chuvinha miúda... chove, chove,
Sonhos d'amor, chorai, chorai!...

Eugénio de Castro

 

 

QUADRAS POPULARES

Quadras populares da nossa lavra




I

Santo António, Santo António
Que tens tu de especial?
Abençoa os professores
E dá alegria ao arraial.

II

Ó meu rico Santo António,
Ó meu santinho popular.
Que tal vires ao Pinhal Novo
C’ os alunos saltar e brincar.

III

Ó meu rico Sto António
Ó meu santinho popular
Não me dês com uma mão
E venhas com outra tirar

IV

P’ra baixo todos os santos ajudam
Quando temos uma aflição
Venham cá meus santinhos
Sto António, São Pedro e São João.

 

 

Cavalinho, Cavalinho

Cavalinho, Cavalinho

Cavalinho, cavalinho
Que baloiça e nunca tomba;
Ao montar meu cavalinho
Voo mais do que uma pomba!

Cavalinho, cavalinho,
De madeira mal pintada:
Ao montar meu cavalinho
As nuvens são minha estrada!

Cavalinho, cavalinho
Que meu pai me ofereceu:
Ao montar meu cavalinho
Toco as estrelas do céu!

Cavalinho, cavalinho
Já chegam meus pés ao chão:
Ao montar meu cavalinho
Que triste meu coração!…

Cavalinho, cavalinho
Passou tempo sem medida:
Tu continuaste baixinho
E eu tornei-me tão crescida!

Cavalinho, cavalinho
Por que não cresces comigo?
Que tristeza, cavalinho,
Que saudades, meu Amigo!

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila

 

 

PRIMAVERA

CANTAR DO MELRO

(...)

Oh! Que linda é a vida!
Que florida
e encantada
madrugada!
Este vestido da terra
é curtinho e transparente:
deixa ver
perfeitamente
a pele da Primavera,
nua e branca, a amanhecer...

Cantam, rindo
riso lindo,
raminhos,que reflorescem...

Homens e flores
falam de amores!...

E, matinal,
no azul um sol donzel de Abril floral.

Afonso Lopes Vieira
in « Doze Canções do Ano»

 

 

Dia Mundial da Árvore

"As árvores e os livros"

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga

 

 

 

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